MEU AMIGO MOTOQUEIRO
Sempre sinto quando uma troca de olhar é o marco de uma história. Essa história começou em uma troca de olhar. Tímido e quase despercebido. Passou para olhares de esgueio, tentando escapar do olhar que vinha. Um dia, e segundos se cruzaram e parece que por uma eternidade o tempo parou. O tempo parou para aquela história começar.
Entre uma carona e outra o dono daquele olhar, com seu charme de menino tatuado ganhou a atenção da moça que corria dos namorados fixos naquele momento da vida. Ela achava que eles davam muito trabalho, cobravam demais e, em geral, eram pouco divertidos.
Ele, um libriano motoqueiro, cheio de vida, ela sempre viajando a trabalho, com pouco tempo pra se divertir. Mas entre uma vodca e outra nas baladas na Vila Madalena um encanto lhes caiu. Os olhares, já não tão breves, não tão tímidos, já não se esforçavam para que não se encontrasse. Olhavam fundo, com alegria das batidas eletrônicas que compunham aquelas noites intermináveis.
Se divertiram, riram, viajaram, namoraram escondido na ilha de Paquetá. Comemoraram o novo século que chegaria apenas no outro passar de ano e seus corpos se enroscavam numa dança inesquecível.
Um dia, os olhares se perderam, desviavam-se quando se encontravam e algo de misterioso tomou conta daquela diversão. Acabou a brincadeira.
O tempo passou. A moça, tempos depois, um dia tornou-se mãe. O menino tatuado, já homem apareceu para conhecer o seu bebê e a olhou com um fraterno sentimento que brotou daquela brincadeira. Então, eles se reconheceram. Eram outros, mas algo os ligava porque quando se olhavam se despiam, não julgavam e se admiravam apenas pelo que eram. Acabou a brincadeira e nasceram dois amigos. Amigos que poderão brincar para o resto de suas vidas. Hoje, com suas crias, seus novos mundos suas novas canções, seus novos horários.
Os olhares são transformadores. O primeiro é sempre um sinal. Quando o perdemos jamais saberemos. Cabe a cada um decidir se a vida insiste em manter a força de um olhar, ou apagá-lo de sua memória.
Meu amigo libriano comemora 47 anos no próximo dia 18. Não somos grudados, Vivemos dias muito diferentes. Mantenho seu olhar em minhas melhores lembranças, porque da nossa breve brincadeira sai uma mulher melhor do que a menina que entrou. (out/2016)
Comentários
Postar um comentário